quarta-feira, 12 de março de 2025

GENTE DA GENTE: GENÔ , O MENINO DA RODOVIÁRIA.

Num mundo de exploração e falta de oportunidades, algumas pessoas sempre tentaram manter sua dignidade e de suas famílias com o que havia: o trabalho  braçal.

 Uma das figuras mais importantes nas rodoviárias , estações de trem e até em trilhas sempre foi o maleiro ou carregador de bagagem.

 Além do trabalho pesado (muitas vezes eram encomendas), o maleiro também era guia de turismo, indicando restaurantes e pensões para hospedagem.

Em Angra, o mais famoso foi o Genô, Agenor  Coutinho dos Santos, que nos anos 1960/70 atuava na antiga rodoviária  do centro de Angra.

Um personagem esquecido há décadas...que só nossa arqueologia dos costumes , do IPHAR, traz de volta.

Antigo ônibus da região,anos 1960/70.

 Aliás, ele era meu parente por adoção: meu avô, Seu Ramos, o achou ainda criança desmaiado e abandonado numa praça, passando mal. Não tinha parentes conhecidos.Foi adotado. 

Genô amava carnaval: ia atrás dos blocos...

Para ilustrar, um "causo" de Rolando Boldrin, outro saudoso:

Clique aqui e veja o causo

As crianças até caçoavam dele...e ele respondia sempre sorrindo, maroto.

Antiga rodoviária de Angra dos Reis-RJ 

Quando eu era pequeno ainda visitei-o no Asilo São Vicente de Paula, no centro, com minha mãe e a tia Nelza. Já estava acamado e idoso...viveu segundo relatos, até seus 102 anos.

Valeu, Genô! 



quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

ARQUITETURA: ESTUDO INÉDITO* *DO IPHAR APONTA* *POSSIBILIDADE DE AFRICANIDADE EM IGREJA ANGRENSE.*


Um estudo em fase inicial do IPHAR em conjunto com fontes documentais e historiadores parceiros, indica que no altar -mor da histórica Igreja de Santa Luzia, em Angra dos Reis-RJ, pode ter elementos êmicos de ancestralidade africana.


🔸 Histórico do imóvel

Nascida da união de um grupo de pescadores no século XVII e da promessa de uma graça alcançada por uma família, serviu  de local de culto pela Ordem de São Francisco durante as obras de conclusão do seu Convento São Bernardino de Sena e também de igreja matriz da Mitra diocesana (na época, ligada   a capital) enquanto a Igreja de Nsa. Sra. da Imaculada Conceição era erigida.

Sua aparência atual vem do final do século XVIII e a Irmandade de São Benedito migrou sua sede para lá em torno de 1930.


Reconstituição histórica 



🔸 As características do retábulo

Apresentando nuances do estilo barroco tardio e do rococó, a igreja é pequena mas tem todas as divisões espaciais  e partes oficiais das grandes igrejas da época, como arco central (presbitério), coro, púlpito lateral.

O retábulo por sua vez, tem moldagem do rococó , com colunas caneladas, resplendor, dossel etc.

Altar -mor

Detalhe

Atualidade 

🔸 O mistério revelado?

Nossa possível descoberta se baseia no dado de que no intervalo entre o século XVIII e fins do XIX temos o uso diversificado do espaço, inclusive com a influência de franciscanos, que em Angra sempre foi teologicamente mais próxima dos excluídos, indigentes e escravos.

Porém, essa lacuna temporal gera dúvidas desse poder libertário de algum movimento de africanidade a ponto de impingir sua marca física num altar .



🔸 A comitiva técnica

Em setembro/24, duas historiadoras, Sra. Lourdes Silveira e Sra Eliete Ângelo, com expertise em diáspora africana, estiveram na igreja a convite do IPHAR, e em antemão, já identificaram figura antropomórfica que lembra uma máscara africana ritualística; ela fica entre o camarim e o dossel, abaixo das sanefas.

Veja aqui a participação delas na Festa Literária de Mambucaba:

Clique e conheça as historiadoras

Amigas e preservacionistas


🔸 A provável origem geoétnica

A estilística da máscara está calibrando para o Reino Senufu, da Costa do Marfim. Ali a linguagem artística  era e é ligada ao feminino sagrado.

Os escravizados que vieram para o Brasil, dessa região, eram mais letrados e tinham influência islâmica.




Continua o estudo....

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

O TROPEIRO MARRANO: PATRONO DE IGREJA ANGRENSE TERIA ORIGEM JUDAICA..

 

Um olhar sobre a igreja da Lapa, em Angra.

Baltazar Mendes de Araújo , 

patrono das obras da Igreja de Nsa. Sra. da Lapa e Boa Morte, no século XVIII, tinha conhecimentos cabalísticos e talvez judaizantes e era comerciante , sendo grande viajante ultramarino e terrestre. 

Obs:reconstituição
meramente artística
 

Como possível marrano sefardita, tentou absorver a sociedade católica luso-brasileira em seus costumes.

Assim, sua influência na constituição artística e simbólica do altar-mor da igreja foi preponderante.

Um dado importante é que ali subsistiu por um período da história, uma associação/irmandade de pretos e pardos, situação separatória de etnias , típica do século XVII-XIX.

Figura negróide:
provável forma de protesto

Cedro oriental ( Cedrus libani),
  
elementos orientalista
 e de citação exógena
 ao catolicismo regional.

A talha decorada com elementos pictóricos orientais e esotéricos levam a um balizamento universalista da passagem efêmera da vida e do tempo.

Lunae

Figuras antropomorfas negróides e até penachos se comunicam e exprimem algo específico , ainda que confundidos com vultos da cultura clássica greco-romana.

Temos várias publicações aqui no blog sobre o assunto:clique aqui e veja

Solis

Baltazar, com sua experiência empírica com tantas etnias e culturas em suas viagens, nos deixou um legado de uma das mais belas obras de arte da Costa Verde e talvez da América.

Obs:"marrano" era o termo usado desde a idade média aos judeus cristianizados, mas que mantinham em segredo suas práticas religiosas.

Carlos Eduardo da Silva

Prof.Lic.His.

Pres. IPHAR













quarta-feira, 27 de novembro de 2024

A ARTE EM MIÇANGAS DOS POVOS INDÍGENAS

Os diversos povos indígenas do Brasil tem variadas formas de expressão cultural e cosmogônica, tais como em cestarias, danças, cânticos rituais, vestimentas , pinturas e grafismos. Uma delas é muito criativa e detém traços ancestrais: o artesanato em miçangas industrializadas.

Acervo: M'boi bocorá


 🔶1-Origem


A origem dessa arte é no século XVI, quando por engodo, os europeus traziam pedaços de vidro coloridos e botões de camisa brilhosos (e sem valor!) e presentearam ou escambavam com os nativos em troca de frutas, madeira nobre, pedras preciosas, sexo e ouro .

Escambo 

Vidros coloridos, o engodo


🔶2-O que descreve?                             


Na maioria das vezes, com simbologia étnica original, esses artesanatos refletem o mundo vislumbrado por essa população; são tanto figuras geométricas antigas quanto da natureza, como animais , flores e para agradar ao público não -indígena,   até times de futebol.




🔶3-O material  


As miçangas  são  peças  de plástico  , em forma oval, redondas ou achatadas, multicoloridas, produzidas pela indústria .

 Em Angra dos Reis-RJ, Paraty-RJ, Ubatuba -SP e em todo o litoral da Costa Verde fluminense e Norte paulista, temos a produção desse elaborado trabalho manual. A seguir, um colar que é usado basicamente por lideranças, pois a cobra coral ( Micrurus coralinus) é muito venenosa, mas é vista portanto como poderosa e significa proteção ao alimento dos cestos e também contra males espirituais. Esse padrão de grafismo se chama M'boi bõwora, ou Bõworá (Bõcorá), G: {')bõi-(serpente)- korá (do Port. coral?).

terça-feira, 19 de novembro de 2024

⚜️💠O MESTRE ANGRENSE: UM GÊNIO SEM NOME.⚜️💠

Angra dos Reis-RJ viu florescer durante a primeira metade do século XVIII, dentro do Convento São Bernardino de Sena uma elaborada e rica arte .

 
Reconstituição
meramente artística
 

 Das mãos hábeis do santeiro conhecido e citado por poucos visitantes da época apenas como "mestre de Angra", saíram relicários e imagens sacras barrocas e rococó , em madeira  e terracota com técnica genial. Suas obras se espalharam pelo litoral do RJ, SP e Vale do Parahyba, em fazendas e igrejas, sendo hoje acervo do Museu de Aparecida (Basílica) , Museu de Arte Sacra de São Paulo, Museu de Arte Sacra de Angra dos Reis-RJ e o Museu de São Sebastião -SP. 

Há estudos em andamento inclusive atribuindo a ele a autoria da própria Nsa. Sra. Aparecida e da imagem de Nsa. Sra. do Rosário de Mambucaba, está protegida por lei federal.

Clique no link e conheça o estudo sobre a Virgem Aparecida

Seria ele um judeu acolhido entre us franciscanos por seu talento e por isso "sem nome" (perseguição religiosa)?







ACERVO:AS BONECAS MÍTICAS DOS INÎ-KARAJÁ

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ACERVO: ETNOLOGIA

🔸1-Mitologia da origem

Na região do Rio Araguaia nasceu uma civilização que hoje ainda vive com seus costumes ancestrais e cosmogonia própria, é o povo "que veio das águas", os Inî-Karajá.

A mitologia de origem narra que viviam num reino sob as águas frias e escuras, porém felizes e gordos. Quando um dos jovens achou uma passagem para o reino de fora, o inysedena, achou-o muito bonito e espaçoso, com praias de rio pra correr, árvores pra brincar, etc. Porém, ao tentar voltar, a passagem estava fechada e guardada por uma cobra. Assim ficaram no mundo externo e se tornou o atual povo Karajá.


🔸2- As bonecas e a reprodução cultural

As bonecas são parte do aparato de educação das crianças e jovens para a perpetuação de seus costumes, mitologia e aprendizado sobre a vida cotidiana. Retratam tanto cenas diuturnas da comunidade quanto exprimem os grafismos do universo êmico. Carregam em suas compleições, a perenidade de uma forma de viver e as  sinapses da decifração do meio, numa verdadeira síntese conceitual , a partir de um objeto .




Paraty, 11/10/24.

Carlos Eduardo da Silva 

Rep. IPHAR

Prof.Lic.Hs.

domingo, 29 de setembro de 2024

EXPEDIÇÃO TÉCNICA RUBIÃO: ESTRADAS HISTORICAS E CAMINHOS ANCESTRAIS


A região da Costa Verde fluminense é uma das mais antigas em movimentação humana da América. E as trilhas de Mangaratiba -RJ fazem parte desses itinerários ancestrais, não só do período colonial e imperial, mas também da era holocênica (e seus desenvolvimentos humanos pré históricos).

1-Inicio

O objetivo dessa missão está dividido em dois eixos: identificar o piso da dita Estrada do Atalho de 1835 e outras estruturas e mapear antropológica e geograficamente a trilha serra acima Muriqui x Rubião.

A equipe formada teve o guia Alessandro do Café  na Trilha (MTur ), o arquiteto Gil Fonseca, o pesquisador e especialista em miniaturas históricas 3D (de perspectiva real) Alex Rocha, a pesquisadora e apoio logístico Maria Célia e eu, como historiador.




2- A Vila do Saco

sua pujança e ruínas atuais(Parque) são apenas uma distante e pouco valorizada memória do que de fato representou aquela região. 

As paredes bicentenárias , altas e imponentes dos lupanares, galpões de escravos, vendas para tropeiros e tavernas são o símbolo de uma época de entradas e saídas de milhares de viajantes, livres ou não, que movimentava a economia.



Paredões sem embolso,
demonstram
diversas tentativas
de reformas e elementos
 estruturais enxertados
em diversos períodos 

A construção da Estrada nova (ou do "Atalho") também significou uma nova injeção de dinheiro e demandas ao vilarejo; milhares de escravos , artesãos portugueses (lavra), piratas e até ingleses e escoceses, fez com que pequenas vendas e empórios se desenvolvessem ao longo do caminho.Diz-sr que o comércio humano escravista era praticamente livre.

Provável sobrado
comercial e teatro


A técnica construtiva
do canjicado


Em nossa incursão, observamos vandalismo das ruínas majestosas, com muita pichação e também algum enraizamento vegetal, o que enfraquece os paredões e sacadas. Porém, há alguns anos, a prefeitura tomou uma boa iniciativa de instalar bancos , correntes decorativas e iluminação artística, elementos que estão precisando de manutenção.

Porém, naquele núcleo urbano, apinhado de gente e ratos, pululavam murmuração e protestos contra impostos, apoio a pirataria e práticas anti imperiais...

 3-Estrada do Atalho e sua configuração construtiva .

A estrada dita do Atalho, nada mais foi que uma nova rota privada para o mar. Porém, entre 1835-57 a estrada passou por vários problemas de manutenção, diversos contratos desrespeitados e a diminuição e desvio do fluxo de tropeiros e cargas devido a nova tecnologia ferroviária incentivada pelo Governo imperial, o que sucumbirá o empreendimento a falência. 

A inovação dessa estrada se destacou na época foram as adaptações estruturais baseadas no clima e geografia, confirme conceitos de Thomas Belford, onde se usavam camadas de pedras maiores na base + pó de pedra compacto + argila prensada por rolo compressor na superfície (descrição de Almeida & Oliveira, 2022)

Os contratos assinados por Bernardino José de Almeida e pela Cia. Industrial de Mangaratiba determinavam, entretanto, que a estrada utilizasse o sistema moderno de John McAdam. No século XIX, o método sugerido pelo engenheiro escocês era amplamente utilizado na Europa e nos Estados Unidos da América. McAdam, ao final do século XVIII, constatara que a base rígida usada desde o período romano era dispensável, pois as tensões geradas pelas cargas dos veículos diminuem com a profundidade, não sendo necessário o uso de aglomerante, já que impede o escoamento das águas.




Ali, nossa equipe percorreu o trecho correspondente desde a planície até o marco de quilometragem em pedra número "1". Ali pudemos identificar placas explicativas colocadas pelo Instituto de Arqueologia Brasileira -IAB. Também fomos aos atrativos fluviais como nomes de "poços".










Crianças brincando
 livremente 





Marca de bomba
 de dinamite





A estrada tem muretas e terraças


Atrativos de
lazer sinalizados

Marco de
 quilometragem "1"

Placas de
identificação
arqueológica






Detectamos boa conservação feita pela prefeitura, inclusive com limpeza da vegetação, mas já apresenta desmoronamento nas laterais em curvas, devido a lixiviação das torrentes pluviais. 

4- A trilha, a Fazenda e as cachoeiras

Voltamos para o bairro do Saco e de lá, chamamos transporte de aplicativo , deixando nosso carro nas vagas públicas das Ruínas. De aplicativo subimos a Serra do Piloto e fomos até a entrada da Estrada do Rubião, onde fica uma pequena praça e escola .


    6 .1- a posse da terra e a Igreja Católica como fator de proteção social

Seguimos em uma estrada larga, com vários sítios e fazendas pequenas, mas também a história recente se mostra bem clara: estruturas de religião cristã ainda estão de pé, como pequeno arraial com um Centro Pastoral e  Cruzeiro .

Essas construções vem dos anos 1970-90, quando as terras devolutas e tomadas pelo Estado começaram a ser disputadas por posseiros antigos legítimos e a especulação imobiliária. A Pastoral da Terra, entidade da Igreja Católica, prestou assistência jurídica e espiritual aos sitiantes ameaçados, além de organiza-los.

Passamos por estruturas da Igreja Católica que realmente lembram a organização social e a religião em prol dos trabalhadores.

Centro de Formação ,
 com Cruzeiro.

  6.2- a sede da  Fazenda

A Fazenda Rubião é do século XIX. Sua origem remonta a um complexo de fazendas de produção de aguardente e alimentos diversos, que desde o século XVII.

Seu estilo atual é neoclássico dos 1800 com híbrido do início do século XX.



Igreja/capela



Conjunto arquitetônico 

Roda d'água 

Nela existe um belíssimo lago e em volta um capela e uma roda d'água, formando um conjunto visual belíssimo de paisagem.

Há recentemente uma tentativa de receber hóspedes e visitantes mediante agendamento.

A fazenda já teve episódios famosos e traumáticos, desde um estrangeiro que do nada chegou com capangas em 1954 e tentou desmatar a serviço de um carvoeiro de Barra Mansa , até um traficante de cocaína colombiano que lá montou um laboratório, chamado Ivã Lespreto .

6.3- Continuamos a trilha..

Da estrada RJ-149, seguimos caminhando por vales, sítios e paisagens magníficas. 

Rugosidade de
uma árvore gigante 

Árvore da floresta
 ombrófila densa

A estrada propriamente dito termina logo após a sede da fazenda, uns 800m, numa porteira. Ali pode-se abrir a porteira e passando entre cavalariças e currais, tem uma bifurcação, só pegar a direita e subir a montanha, agora, por trilhas, sem acesso de automóvel (ver foto e mapa de coordenadas).

A subida após
o fim da estrada

Mirante natural

Importante, já na trilha após a porteira e dentro da mata, tem uma bifurcação onde há uma placa escrita "fonte", siga subindo, não entre em caminhos opcionais.

É o caminho do cume para a vertente da serra do mar/Mata Atlântica...de onde se descreve e começam os atrativos maiores as cachoeiras.(Ver fotos e mapa de coordenadas).

Após o chamado cocuruto ou em linguagem formal, o cume ou vertente da Serra marítima, começamos a descer por um caminho de trilha sombreado e com muitas bifurcações, certamente de caçadores e mateiros, mas continue descendo. Infelizmente, as entradas das belas cachoeiras não tem indicação, por isso um guia nativo é importante.

Véu de Noiva eo símbolo das
 Olimpíadas Rio 2016




Cachoeira do Palhaço 



Cachoeira da Bota



É ali na região frontal ao mar, acima dos bairros Muriqui, Cachoeira 1 e Cachoeira 2 que estão as Cachoeiras Véu de Noiva (símbolo da Olimpíada), do Palhaço e da Bota.











6.4-Epilogo 

Assim, mais uma trilha e estudos foi feita. Com boa equipe , conseguimos amealhar mais dados e registros historiográficos, alguns inéditos, para nossas prospecções de campo, além de uma experiência sensorial múltipla.

Carlos Eduardo da Silva 

Prof Lic.

Pres.IPHAR

Sábado, 22 de junho de 2024