sábado, 3 de janeiro de 2026

EXPEDIÇÃO TÉCNICA BRACUHY 1: Estudos da região escravista avançam.



1- Introdução: dos preparativos e da meta

O nosso grupo tem estudado a região escravagista do Bracuhy há mais de 30 anos.

Há ancestralidade pessoal envolvida, pois os Ramos , família antiga da região , tem registros de pertencer provavelmente ao Pedro Ramos , afilhado do Joaquim de Souza Breves, grande latifundiário do século XIX e traficante de escravos.


Vídeo: contingentes chegando de um navio traficante...

 Como parte do nosso Estudo interno fizemos no dia 12 de setembro de 2022, 2023 e depois em setembro de 2025 uma prospecção em campo  para mapeamento do circuito da dita "diáspora africana" e estivemos no sítio arqueológico da Praça dos Namorados ou igreja do outeiro, dentro do bairro Porto Bracuhy.

Fizemos as medições arquitetônicas, as coordenadas geográficas e tomada de fotos , para identificação e registro pós-expedição.

Guiados pelo ativista ambiental, trilheiro e morador Ivan Neves, que sabe toda a oralidade e acompanhou pessoalmente alguns momentos da transformação da área durante anos, pudemos traçar o perfil de uso provável e a dinâmica antropológica do espaço.

Em 2023 tivemos a presença do Valnei Albino, nosso membro efetivo, Agnes Ethel também membro efetivo e Maria Célia, vice Presidente.




2-Caracterização do espaço arqueológico

Ele fica localizado numa elevação e cercado de planícies. A mais ou menos 1km ficam as margens do rio Bracuhy e hoje com bairros em volta, possivelmente era cercado de manguezais e alagadiços.

O topo da colina mede no máximo 300 x 200m .



As ruínas estão próximas do declive a oeste do topo do morro.

As construções pesquisadas demonstram pelas técnicas construtivas ter base no século XVIII pois com altura de 1m, a partir do solo compactado, o arrimo foi montado com fôrma rudimentar por blocos lavrados apenas de um ou dois lados, sendo disformes e variados no recheio do muro/piso-base de rochas provavelmente  locais e  lajotas maiores e mai trabalhadas no que seria o piso  , com sobreposição sem qualquer massa visível de junção,  não identificamos nem mesmo as peças menores que normalmente são embutidas entre as peças maiores, que chamamos de canjicado.


Média das
peças lavradas
 do estrato rochoso:
                               10-12cm de altura



Visão do arrimo/base.

Visão geral


O perímetro é formado por uma base retangular medindo 20m x 60m aprox. e uma segunda base retangular, mais alta, medindo 12m x 56m aprox., esta sendo o piso da construção de uso .

colunas


 A base maior tem marcas sulcadas na pedra de 10 x 10 , resquício da do encaixe de uma colunata, ou seja , um alpendre; porém apenas ao longo da calçada direita , que está para o lado do grande pátio de chão batido (nordeste) .

sulcos na rocha:base de alpendre?

Reconstituição

Também registramos as últimas colunas eretas do conjunto arquitetônico,  na parte interna do segundo retângulo e no número total de 8. Seu material é misto, incluindo blocos grandes de pedra irregulares como estrutura principal mas também cacos de telha, tijolos de adobe e até cimento moderno, o que indica uma tentativa de restauro ou manutenção recente. Essas colunas medem igualmente 0,80 m cada lado. O espaçamento entre as colunas no cumprimento retangular, ou seja, retilíneas,  é de 4,40 m e na altura , ou seja , entre a colunata de cada lado , 5,10m.

tijolos de adobe


Há ainda um altar em forma de capela e uma mesa de alvenaria, modernos, por isso o uso popular nomeando o local como "igreja do outeiro", sao feitos de tijolo tipo "baiano" e massa química de cimento .

Altar e oratório


Um ponto importante foi a presença de piso hidráulico historicamente usado no início do século XX.

Tubulações 

Escoamento: de metal


 Sob essa moldura , há tubulações metálicas de cobre ou ferro fundido embutidas na base original do século XVIII/XIX o que pode demonstrar uso de moradia ou misto  por um tempo, com escoamento hidráulico.

piso hidráulico, início do século XX

A dita capela deve ter sido usada nos anos 1980/90 pelo desgaste do material.

Relatos também indicam que até mesmo, isso já na década de 1990/2000 serviu como boate/danceteria.

Digno de nota , é a presença de grande espécime de pedra com um vão oval esculpido nela , como se fosse a base de uma pia batismal.


Assim, pudemos arriscar uma datação de uso em:

1° período- final do século XVIII e 1° metade do século XIX.

2° período- início do século XX

3° período- década de 70/80

4° período- Década de 90/2000.


3- Da reconstituição do teatro antropológico

Através de aplicativos de base de software de ML, optamos em fazer duas reconstruções teóricas daquele patrimônio edificado. 

Assim, apresentamos dois usos. Um religioso e um administrativo:

Uso religioso


Uso administrativo escravagista

Reconstituições teóricas:

Visão geral, com colina
cercada de alagadiços e mangues.


Pátio para grande fluxo
de animais ou pessoas,
do tipo "plaza" espanhola
nas Américas.


Alpendre com colunata
(podendo ser de madeira) 

4- Conclusões

É da nossa tese que a edificação estudada faz parte do arsenal de uso pré- Engenho Central do Bracuhy Souza Irmão e Cia de 1881 quanto Furquin Vapper de 1886, talvez incluso a conjuntura religiosa e apoio logístico.

Também indiciamos um apontamento para uso dentro das estratégias de comércio para aportes contingentes servis via mar .

Por fim, conjecturamos a possibilidade de base para quartel.

São apenas teorias, firmemente pautadas em avidências.O Estudo inédito, continua.


5-Epílogo

O contexto do conjunto esparso dos diversos sítios arqueo-históricos  da região envolvendo Bracuhy, Itanema, Santa Rita , Ariró , Kitumbo e Praia do Recife está sendo alinhavado com pesquisa de campo, hemeroteca, etc e tradição oral. Formando um só conhecimento da dinâmica do capital e das relações.

Carlos Eduardo da Silva

Prof.Lic.Hs.

Pres.IPHAR

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

AMOR CAIÇARA: UMA ANÁLISE ANTROPOLÓGICA.

 Uma fotografia é mais que um registro de um momento afetivo: é um documento. E na historiografia, com os recursos e conhecimentos transversais técnicos aplicados de arqueologia dos costumes, podemos extrair diversos elementos característicos no recorte do tempo e do território, mediante a própria estética mostrada.



O bairro da Praia do Bonfim ainda hoje, embora densamente povoado e com jeito urbano, possui ainda uma aura de bucolicidade caiçara, principalmente nas horas da madrugada no amanhecer e finais de tarde com a Capela do Senhor do Bonfim de fundo na paisagem e cigarras cantando com a brisa do mar a tarde...




O resultado:




Nesse sentido, segue um resumo de um laboratório mais profundo que fiz tendo como material uma fotografia angrense.

sábado, 22 de novembro de 2025

IPHAR IDENTIFICA SÍMBOLOS AFRICANOS NA CASA DE CULTURA DA ILHA GRANDE, ANGRA DOS REIS-RJ.*

Fomos convidados para uma Roda de Conversa dentro da programação do 2⁰ Festival Negro da Ilha Grande nesse 20/11/25.





Como é de praxe, fizemos uma prospecção de campo na área e identificamos 2 Adinkras nas estruturas do prédio, que é do século XIX.





Feijoada gratuita a todos

café da roça

Eu, Jamaica e Cosme



Fizemos o anúncio durante a Roda, aos presentes. 

Aparentemente encaixamos a estilística nos Adinkras abaixo relacionados . 







🔆O IMÓVEL

Os ideogramas estão na estrutura metálica que fecham os vãos das portasg e janelas a moda de tecitura e também no óculo do frontão em arco.







O prédio foi usado como armazém de café, de cachaça e de outros afins comerciais .

Tem pé direito com mais 6m e esquadrias e gradis de ferro fundido.


🔆ADINKRAS, A LINGUAGEM DA SABEDORIA 

Durante o Reino Ashanti, que embora rivalizasse na região de Gana com outros Reinos por gerações, do século XVIII ao XIX teve seu auge, formando um império comercial, militar e cultural.






Assim, os Adinkras formam uma coleção de ideogramas com fundamentos sapienciais , sendo uma tecnologia de comunicação não-verbal.


 🔆DITADOS DE SABEDORIA





O (A) é traduzido como: "volte ao passado e continue para o futuro."

(B¹) : um símbolo Adinkra que significa " criança do céu" ou "estrela", representando a tutela e o amparo divinos.

Temos no (B), a mensagem: " "contador de estórias". 

Símbolo de astúcia e inteligência_ . Suas histórias mais famosas envolvem-no obtendo as histórias do deus do céu (Nyame) para compartilhá-las com a humanidade.

 

🔆OS ARTÍFICES

Importa ressaltar que dentre os milhões de escravizados que desembarcaram nas Américas, fortemente no Brasil, estavam muitos fabricantes expertos em metalurgia, serralheria, arte em pedra e outros profissionais com experiência nos diversos reinos africanos , incluindo arquitetura e ourivesaria.




Os colonos serviçais europeus e mamelucos por sua vez, não eram letrados e mesmo com tino comercial, eram broncos marítimos ou migrantes de áreas rurais da Europa. 


Assim, o linguajar simbólico nas construções era enxertado sem que os senhorios percebessem.

🔆RESULTADO

 




🔆EPÍLOGO

A participação do IPHAR no evento a convite da Sra. "Dinha", ativa liderança da causa negra mas também do movimento social geral, fez de nós muito mais do que emissores de um pretenso depositório de conhecimento...mas ao contrário, tanto pelas vivências multiplas ali partilhadas e sensações profundas afloradas, saímos com  mais uma linha de pesquisa aberta sobre a presença afrodiaspórica na Ilha Grande, dialogando com as estéticas imateriais contemporâneas , também as  pretéritas e as evidências físicas.

Quem aprende é quem mais ensina.


Carlos Eduardo

Prof.Lic.Hs.

Pres.IPHAR

20/11/25