domingo, 26 de março de 2023

⚓HISTÓRIA DE ANGRA🛟: A IGREJA CARIOCA E O NAVIO AQUIDABÃ

📣O que uma igreja carioca tem a ver com um navio naufragado na Ponta Leste...

Virgem


Míssel


Em 1750 um grupo de comerciantes se juntou e fundou uma igreja sob a invocação de Nsa. Sra. da Lapa dos Mercadores .

Na Revolta da Armada, em 1891-94, parte da Marinha se rebela,  com baixos salários e a ditadura de Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, com o Congresso fechado.

Um dos navios participantes era o Aquidabã; que bombardeou em 1893 a capital federal, com um dos projéteis atingindo a imagem da Virgem, que caiu do alto da igreja , mas nada ocorreu com a mesma de grave.

Frontispício

Nave
Cúpula

Arco central
Aquidabã 

O navio Aquidabã explodiu em 1906, na região atual da Ponta Leste, em Angra dos Reis-RJ, com dezenas de mortos, inclusive ministros de Estado e jornalistas...foi uma explosão vista até na Ilha Grande e centro da cidade de Angra, conforme relatos de jornais e revistas da época.

Monumento aos Mortos do Aquidabã,
Angra dos Reis-RJ

Todo ano a Marinha faz
uma solenidade no Monumento.

A economia de Angra pulsava,  devido a sua Baía protegida e longa data de prestígio de lideranças locais. A ferrovia estava projetada e ia chegando...via Mangaratiba ( Sapucahy).  E outra, já singrava as escarpas da Mata Atlântica (EFOM).Em 1914 seria inaugurado o Colégio Naval.

Clique e conheça a ferrovia Sapucahy, que ligaria a capital federal(Rio) a Angra

Até hoje há teorias da conspiração sobre esse naufrágio, ligando parte conservadora e golpista  da Marinha como retaliação a "revolta". Já outras teses falam de grupos de empresários ligados a políticos que não queriam a construção do porto e instalações militares do Arsenal da Marinha em Angra(foi a missão da viagem  do Aquidabã e autoridades), pois essa obra fora da capital, contrariaria o interesse desses donos de grandes terrenos, empresas de construção e políticos do município do Rio...


Texto: Carlos Eduardo, IPHAR

Imagens da igreja: arqueologo Cláudio Prado de Melo.IPHARJ, março/2023

quinta-feira, 9 de março de 2023

O PODER DO ARTESANATO ÉTNICO

Há muita confusão entre o conceito de trabalho manual e artesanato.


1-Conceito básico

Os trabalhos manuais podem ser divididos de forma simples em : manual utilitário e manual terapêutico. Ainda que possam inclusive ser objetos que mesclem as duas formas de construção, pela forma de utilização, essas duas formas são paralelas ao artesanato.


Se vê muito em Casas de Cultura e centros culturais públicos , objetos iguais ao que a japonesa, a alemã e a árabe fazem, numa espécie de globalização ,  ocupando esses locais nobres com  meras repetições tiradas de revista . É o populismo sem critério de área cultural dominada por políticos! 


Enquanto as primeiras , na maior parte, tem a intenção de cura ou tratamento (terapêutico) e uso diário (utilitário), o artesanato é aceito como algo com técnicas naturais e populares, com o mínimo de produtos artificiais/industriais e sem ser em série (fordismo). 

Linha de produção padronizada

Assim, o verdadeiro artesanato terá características únicas, estritamente regionais e identitários de uma cultura específica; com nuances artísticas (criatividade + intenção simbólica).


2- O QUILOMBO (São Bento do Sapucaí).

A força do empreendimento das mulheres  da região rural do Quilombo, vem do uso de materiais fitorgânicos ou animais , coletados da própria natureza local , de expurgos da renovação florestal , sem impacto significativo.

Esse grupo se chama Arte no Quilombo e reúne dezenas de artesãs. Há um galpão enorme, com uma capelinha externa em estilo caipira, de taipa.

O Quilombo de São Bento de Sapucaí tem sua origem no século XVIII, pois está situado em rotas históricas de contato com Minas Gerais e fazendas locais.



Essas artistas nasceram da necessidade de diversificar suas rendas de "lavadeiras pra fora " , que faziam seu mister há quilômetros, no perímetro urbano, prestando serviço a casas abastadas.







Porém, Quilombos espalhados pelo Brasil tem suas artes e fazeres, mas vi em visita in loco, peças bem diferenciadas: é o caso das borboletas de pena de galináceo, as decorações de parede com taboa, palha de milho e um tipo de capim bem endêmico e principalmente , o Presépio de Amendoim, com milímetros!


Esses artesanatos originais tem essa presença de marcador antropológico.


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sexta-feira, 3 de março de 2023

NOTA DE PESAR: FALECE O CAIÇARA RUSSO, DO MERCADO DO PEIXE

Nesta sexta-feira recebi do querido José Augusto Portugal a notícia consternadora do falecimento do também caiçara e vendedor de pescado do Mercado do Peixe, em Angra dos Reis-RJ, Adilson Alves de Meira, o popular e simpático Russo.


Toda vez que eu comprava sardinha e outros frutos do mar ele dizia:

_Mais um para o gato.

Sua calma em limpar as sardinhas com técnica, era um espetáculo a parte. 

Ele estava bem até 2022, foi quando uma cliente surtada, o agrediu injustamente dentro do Mercado e jogou um peixe no rosto dele; dali, já quase infartou e a diabetes emocional piorou...

Ele está imortalizado numa foto emblemática do fotógrafo Almir Lima.

Nós saudaremos sua memória sempre.

Vai caiçara...no mar de ouro, na sua canoa de cristal rumo ao sol nascente...ali, onde todos os nossos ancestrais estão reunidos, te esperando...


Carlos Eduardo da Silva

03/03/23, Angra dos Reis-RJ.


domingo, 26 de fevereiro de 2023

NOMES ANCESTRAIS DA MINHA TERRA: MONSUABA

 

1-Origem toponímica

Os topônimos exercem uma função muito mais do que meramente marcadores geográficos; para os povos tradicionais, no nosso caso, a comunidade litorânea dos Caiçaras, eles tem calor cultural e afetivo, trazendo no léxico local, palavras tupis e únicas, do vernáculo típico.

É provável que por existir uma taba/aldeia Tupinambá cujo tronco familiar daquela área específica tivesse as características físicas de serem mais troncudos ou atarracados, recebendo dos próprios Tupinambás de outras praias esse apelido de povo grosso (ou gordo).

Porém, como é de conhecimento , pelas narrativas e registros historiográficos, os Tupis eram esguios , altos e até musculosos, o que frutifica a teoria de que talvez tenha sido uma aldeia de outra nação etnológica, os Puris , conhecidos por essa estatura e compleição corporal.

2- O Muçum (Synbranchus marmoratus)!

Mas por que povo grosso?

Vem de um animal, um peixe muito comum na região, em lagoas e riachos.

Vem do tupi , mu'su , mu'sim ou m'buçu, que significa escorregadio, liso. Mas também é naturalmente grosso e longilínio. Daí povo grosso.

D'onde:

M'buçu aba: gente grossa ou povo muçum


Aldeia tupinambá

Família indígena

Igreja original do bairro, século XIX

3-Mudancas são intencionais: uma questão de reafirmação cultural.

Nessa região de Monsuaba, há simplesmente 9 tios meus(vivos e in memorian)!!!

Mudanças de modernidade quase nunca são ingênuas: visam ou a especulação imobiliária e/ou a extinção forçada dos nativos a partir do ataque no âmbito imaginário e identitário. 

Exemplos em Angra:

🔻Original-Sobreposto 

Batanguera- Praia do Coqueiro

Jurubaíba-Praia do Dentista




Os nomes dos relevos e formas naturais são parte do apetrecho de existência e compreensão e até locomoção no mundo que cerca esses povos litorâneos.

Os nomes regionais são um patrimônio imaterial de sua gente!

A FAMÍLIA CENTENÁRIA! MARAVILHA: GERAÇÕES DA MINHA FAMÍLIA SE REENCONTRAM!

 💙🧡💜💚

No dia 15 de fevereiro fui visitar minha tia-avó , Tia Pitita, (Leocádia), de 95 anos, nas terras tropeiras dos meus ancestrais maternos, no bairro Várzea do Inhame, Lídice, um Distrito de Rio Claro-RJ.

Levei minha companheira Maria Célia Costa da Silva e minha mãe, Maria Margarida da Silva.






1-Ancestralidade🏆

É irmã do meu avô, querido Tonico (Antônio Telmo se Oliveira, in memorian) e filha do Gito ( Evergisto Telmo? de Oliveira), meu bisavô e de Anna Maria , bisavó.

Eu ainda tenho 2 tias-avós vivas e plenas de consciência: Perpétua (em torno de 90 anos) e Pitita (95). Meu avô viveu até os 93 anos.





2-Bom humor e memória:

A conversa fluiu com naturalidade e simpatia. O mais engraçado, foi que ela se lembrou de um fato pitoresco de mais de 30 anos: em visita a minha casa em Angra, eu ainda criança, ela tinha gostado de um prato com uma foto(pires) onde estávamos meu pai(Nilton Ramos), minha mãe, minha irmã Kátia  em turismo no Pão de Açúcar, Rio de Janeiro na década de 1980. Só que eu, tirei da mão dela e coloquei de volta na estante...Ela lembrou e disse, rindo:

_Da próxima vez, sem o pires, você não entra aqui.

Famosa imagem do pires


Outro estória lembrada, era que os bailes de quermesse e festas santas (calendário católico) eram muito animados , com muito forró caipira e ela lembrou:

_Quando a gente não simpatizava com o cavalheiro (par de dança), eu dizia que ia beber água na cozinha do galpão (barracão) e com uma amiga, fugia pelos fundos...

Minha bisavó, a mãe dela, era parteira, a melhor da região. Tudo era ela: as vezes saía de madrugada pra ajudar parturientes.

Já meu bisavó, Sr. Evergistro Telmo, era proprietário de muitas terras e animais, casas de farinha e plantações naquela na região, era arrieiro (dono de tropas) mas os filhos não deram encaminhamento com mesma administração.

O mais interessante, é que a todo momento,a preocupação dela era que minha prima, a Lourdes servisse café:

_Lourdes, serve o café.

Ou seja, um costume bonito de acolhida aos visitantes e viajantes, que a família manteve por séculos. 

Estavam lá também meus primos Henriques e o Jonas. Além da Simone Leite, filhado Sr. João Gaúcho ( Veja aqui sobre isso. João ) que é um vizinho dainha tia há mais de 60 anos ...

Estar com Sr. João é sempre uma conversa rica e inteligente

Será que o segredo da longevidade é o senso de humor??

3-Uma preciosa revisita

Havia mais de 30 anos que eu não estivera ali...

Estar ali, diante de uma representante viva do meu passado em plenitude de consciência, independente e com a saúde em condições satisfatórias, é revisitar tanto vivências minhas quanto ser colocado como sujeito da História.

Ver nos olhos da minha tia, os olhos do meu avô, a fisionomia da linhagem, o fenótipo da minha parentela.


4-O tesouro!

Descobri que havia uma foto da minha bisavó, dona Anna ... já com seus 90 anos, está cercada por familiares, segurando um buquê de flores , de cadeira de rodas. Segundo meus primos, eram parentes do filho dela, irmão da tia Pitita, o Nica. Foi um achado, pois pela 1° vez, eu tive idéia da aparência da minha bisavó, que não conheci.



Bisavó Anna 

5-Um símbolo de amor

No quintal perdura o pilão, objeto sagrado de onde saíram farinhas e paçocas para nutrir filhos, netos e amigos, em festas da colheita comunitária do mutirão ou eito, como minha tia fala...ou um simples almoço. Ali está a força de braços  mas também energia do amálgama de etnias: indígena, européia tribal e africana.



8- A Folia do Espírito Santo e a Bandeira dos milagres

A surpresa também ficou com a notícia de que a Folia ainda existe ali no bairro, o capitão ou bandeira, ou líder é o meu primo e levaram a Bandeira para eu ver:com várias promessas penduradas,que na verdade são votos de agradecimento ou prece, do povo da região, onde se vê fotos, laços multicoloridos, fitas de seda e cetim , flores e até mexa de cabelos, tudo em agradecimento por graças espirituais e físicas a divindade, no caso, o Deus em forma de Espírito Santo (Terceira Pessoa da Santíssima Trindade cristã), ou pedidos .


Um belíssimo e bem cuidado objeto de fé que registrei.

No topo do cabo, há uma efígie de prata do próprio Espírito, na forma de uma pomba metálica, o Pneuma Ágios da Igreja primitiva, conforme o texto bíblico em Mateus 3,16.

 Um folguedo popular, cujas funções iam além da propagação da regiliosidade cristã, mas era fundamental na renovação dos laços comunitários, notícias civis e portanto , uma verdadeira rede social da época e até hoje.



Clique e conheça a Folia do Divino em Angra dos Reis-RJ

7- Epilogo

Uma família longeva!

Nessas histórias e estórias, está uma antiga e bicentenária ancestralidade...