Mostrando postagens com marcador tupinambás. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador tupinambás. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 13 de abril de 2018

ARQUEOLOGIA:JAZIDA ARQUEOLÓGICA MARINHA EM ANGRA DOS REIS

DESCOBERTA!
Nosso instituto está empreendendo pesquisas  numa jazida arqueológica em Angra dos Reis. Fazendo parte tanto de uma região de engenho e cafeicultura nos séc.  XVIII / XIX , quanto rota de importação/exportação  de diversas manufaturas desde o século XVI.
Esses são resultados preliminares.

 🏛📚ARTIGO📚🏛

TESOUROS EM CACOS

1- INTRODUÇÃO
Sei que é um assunto ignorado pelos brasileiros em geral. Mas os atuantes nos assuntos arqueológicos, historiográficos, etc sabem que - sem cair na autovalorização factóidica - ainda se pode entender os processos produtivos e seus materiais químicos, as relações sociais e econômicas de uma civilização local, com base nas análises da manufatura do objeto estudado.
Diante de um lítico préhistórico, de uma porcelana craqueada e outros longínquos indícios esparsados de um modus vivendi, os pesquisadores conseguem datar  o período em que a peça era usada, a forma dentro do cotidiano que servia e rastrear o local de fabricação.

2-INSTITUIÇÃO ENTRA EM AÇÃO
O IPHAR, como Instituto de pesquisa arqueológica e histórica, recebe de populares espontaneidade em diversos materiais antigos. Sem incentivar a retirada e fazendo um trabalho de conscientização com viés científico- educativo, não podemos condenar essa "curiosidade" popular e também é totalmente indiferente deixar a peça  sem coleta,  desses testemunhos nas praias, pois Angra dos Reis é região muito antiga, tendo desde sítios arqueológicos do Período Neolítico , era das grandes navegações do século XVI e o ciclo da cana e do café.

Nossas ações vão muito além da recolha, pois tais jazidas naturais sofrem com vandalismos e destruição pelo turismo superexplorado do dito day use e portanto, não se pode falar em "manter o sujeito arqueológico no cenário original", o que seria uma inocência por parte dos pesquisadores da nossa instituição. Retira-lo, catalogar e estudar o caco, a parte, pode trazer a tona e à vida personagens, histórias e relações humanas esquecidas nas profundezas do mar. É resguardar o patrimônio.

3-SABEDORIA CAIÇARA
Assim, nós caiçaras sabemos que sempre após as ressacas ou "marões" , a areia é revirada pelas marés fortes e chega naturalmente nas praias os cacos de fainças, porcelanas e às vezes(mais raramente), até cerâmicas Tupinambás , Guayanases e outros povos.

4- RIOS RETROALIMENTAM AS JAZIDAS
Importa ressaltar que muitas desses fragmentos de argila, vitrificados, porosos ou não e stoneaware, são provenientes das enxurradas dos grandes rios que desaguam na Baía da Ilha Grande, nas desembocaduras dos caudalisos Jurumirim, Japuhyba, Mambucaba e Caputera, regiões hidrográficas que tiveram grande movimentação de tropeiros, portos de pedra /trapiches e de exportação, pousos, trocas comerciais, engenhos de cachaça e estradas coloniais que singlavam as escarpas tropicais da Mata Atlântica desde o ciclo aurífero , das gemas preciosas e com auge nas  monocultura do Coffea arabica.

Carlos Eduardo Caiçara
Presidente do IPHAR
Angra dos Reis, 09 de abril de 2018

Imagem:fotografia de uma fainça , com chinesice; provavelmente final do século XVIII e meados do séc. XIX. Acervo do IPHAR.


quarta-feira, 16 de agosto de 2017

O NOME DE MAMBUCABA, EM ANGRA

O NOME "MAMBUCABA"
Há muita polêmica sobre a origem do nome da localidade de Angra dos Reis, situada na fronteira com Paraty.
Konianbebe ou Cunhambebe, liderança 
 Citada desde 1556, no livro de Hans Staden, alemão  armeiro que esteve prisioneiro entre os Tupinambás  (Tamuya/Tamoios), essa região  foi muito desenvolvida a ponto de ter uma estrada pavimentada por escravos, que ligava o litoral ao Vale do Paraíba  e interiores. Estrada essa que é  um feito de engenharia moderno para a época, inclusive com drenagem. Teve sua origem em trilhas pré cabralinas.
Alguns estudiosos, atribuem seu nome a abelha sem ferrão, Mombuca (Geotrigona mombuca)...típica melífera brasileira, de personalidade mansa, pretinha. 
Mas não  é!
Moquem:canibalismo ritualistico?

Geograficamente, as mombuca não  vivem no Rio de Janeiro, embora tenha em São  Paulo e é  possível  que houvesse em Mambucaba mas por anomalia migratória. 

Clique aqui e conheça:

Esse erro provém  da interpretação literal da palavra. Na verdade, uma análise do tronco linguístico  Tupi, nos remete etimologicamente a prefixalidade morfológica da palavra "Mambukabe"(Staden): 

Mbucabelha  / qualquer espécie, generalização
Aba: homem; gente.

Os indígenas  viam a forma de linguajar gutural (fechada dos portugueses), os barulhos e vestimentas dos europeus como um enxame ruidoso, por isso os chamavam "homens -abelha".
Há  muitos anos eu pesquiso esses termos da semântica  indígena. É  indubitável.




Foz do Rio ,
onde provavelmente
 nas proximidades era a taba
dos Tamoios de Mambucaba.

Altar mor da Igreja
 de Nossa Senhora do Rosário ,
com a imagem do século  XVI !


terça-feira, 21 de março de 2017

ASSEIO PESSOAL E CIÊNCIA NA FABRICAÇÃO DO SABÃO DE CINZAS DOS CAIÇARAS

Na vida contemporânea, ainda que seja longe dos grandes centros urbanos metropolitanos, a indústria da higiene e dos cosméticos lança no mercado consumidor de vilarejos, bairros e ilhas, toda sortidão de sabonetes em barra ou líquidos, de aromas tradicionais de glicerina e até exóticos como a jabuticaba ou cerejeira (Amburana Caerensis), que é aromática. A grande parte com preços acessíveis.

No entanto, a cultura caiçara e também dos grotões caipiras, era alijada dessas facilidades, tanto pela geografia quanto pela dificuldade de compra de importados, como era o caso do sabão do "reino", que vinha de Portugal, no século XIX.
Já nas fazendas mais abastadas, vinham sabonetes da França, guardados nos toucadores das "sinhás" e dos donos de engenho.

Técnicas que remontam aos povos tupinambás, mas também conhecidos pelos egípcios e outros povos antigos,  repassados por tradição familiar oral, usam as cinzas da queima do fogão a lenha e banha de porco para fazer a liga.
O sabão de cinzas era multiuso: ariava panelas, lavava roupas e era usado nos raros banhos, quando de festas ou visitas importantes, como o padre, uma viagem ou a noiva.



Ainda viva no Estado de Minas Gerias e interiores da região Nordeste, além de raros povoados entre os caiçaras, as cinzas são então usadas para preparar a dicuada, uma lixívia de cinzas. Para obterem-na Dona Rosa usa um “barde” e água, mas no modo tradicional usam um balaio redondo feito com taquaras de bambu de tamanhos variados (50 a 100 litros, ou maior),ou tipiti de timbopeva, o qual é forrado internamente com folhas de bananeira antes de colocarem as cinzas. As folhas funcionam como um filtro que retém a parte insolúvel das cinzas e deixa atravessar a solução. 

Chamam esse balaio de “barrilero”, que também pode ser forrado com um saco de pano ao invés das folhas de bananeira, tendo o mesmo efeito. Mas, como chegaram a este dispositivo? Como descobriram a sua aplicação na produção desse sabão? Como perceberam a possibilidade de usarem folhas de bananeira para reter a parte insolúvel e desnecessária das cinzas?  As cinzas são compactadas no barrilero usando um soquete ou mesmo as mãos “pra ficá bem socadinho”. 

Caso contrário, se as cinzas não forem bem compactadas, se não “enfiá ela bem na vasia”, deixar “bem socadinho”, se “pô a cinza lá só e pô a água”, a dicuada “não sai tamém não”: “aquilo sai raliiiinho”, torna-se diluída, pouco concentrada.  
O local de asseio pessoal era externo ao prédio da casa principal...no quintal.

As cinzas usadas no preparo do sabão normalmente provêm de fogões e fornalhas a lenha. A madeira sofre combustão nesses locais e o produto final remanescente é a cinza. Sua composição depende do tipo de madeira utilizada. Comumente, cinzas de plantas contêm compostos inorgânicos provenientes das plantas e pó de carvão produzido na combustão. 



Tais como a madeira da Assa Peixe – Vernonia polyanthes Less, a palha do feijão – Phaseolus vulgaris, e a palha do café – Coffea arábica.

Apesar das possibilidades de reaproveitamento da dicuada na forma de "um sal", o sabão de cinzas raramente é preparado usando somente o resíduo remanescente de sua secagem. O mais comum é usarem a lixívia de cinzas.  Aí depois... aí que "apura o sabão”. Outro procedimento atestado das mulheres é o uso de água quente para obter a dicuada. 

A água quente favorece a dissolução do carbonato de potássio, uma vez que esta é endotérmica (DEAN, 1987). Ao ser dissolvida pela água, essa substância dissocia-se e o ânion carbonato sofre hidrólise tornando a dicuada alcalina: O sebo provém da vaca ou do boi e a gordura ou torresmo do porco. São materiais sólidos na temperatura de 25° Celsius. Ambos contêm triglicérides, como a triestearina ou triestearato de glicerila, por exemplo, e pequena quantidade de ácidos graxos livres. 

A maior parte dos ácidos graxos encontra-se combinada nos triésteres, os quais se decompõem em soluções aquosas alcalinas liberando ácidos do tipo mirístico, palmítico, palmitoleico, margárico, esteárico, oleico e linoleico, que irão então reagir com o carbonato de potássio presente na dicuada e produzir sabões. 



O sebo de boi normalmente contém maiores quantidades dos ácidos esteárico (octadecanóico), palmítico (hexadecanóico) e oleico (octadec-9-enóico). 

Fórmula típica de um triglicéride, onde R (cadeia de átomos de carbono) pode variar Fórmula estrutural da triestearina 14 Ácido esteárico Ácido oleico Referência DEAN, J. A (Ed.). Lange’s Handbook of Chemistry. 13. ed. New York, 1987, Tab. 10-2, p. 10-15.




Por tudo isso, o povo caiçara tinha asseio quimicamente estruturado, mesmo com matérias primas naturais.
E hoje, num mundo que sofre com a antropização acentuada, jogando nitritos em rios e mares, pelos esgotos...o sabão de cinzas é uma alternativa.

Parte do texto:http://www.campusvirtual.ufsj.edu.br/mooc/ciencianacomunidade/wp-content/uploads/2015/07/As-mulheres-de-Minas-Gerais-e-o-sab%C3%A3o-de-cinzas.pdf e também figuras da internet